Eco-Exchange, Maio 2005

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Maio 2005

Artesãos de Madeira Estabelecem Projeto Florestal Modelo para Reservas Extrativistas na Amazônia Brasileira

As reservas extrativistas vêm sendo promovidas como a solução sustentável para a conservação da Amazônia Brasileira desde os anos 80, quando Chico Mendes lutou pelos direitos dos seringueiros e sua causa se tornou internacionalmente conhecida depois de seu assassinato por pecuaristas.  O movimento tem obtido um grande sucesso no sentido de convencer o governo brasileiro da necessidade de proteger áreas de floresta na Amazônia.  Até o presente momento, existem 25 reservas extrativistas que englobam 3.8 milhões de hectares e 154.000 pessoas.  Entretanto, existem poucos exemplos de reservas extrativistas nas quais os residentes estejam ganhando a sua sobrevivência de maneira ambientalmente sustentável. 

 

Uma estória de sucesso foi a Oficina Cabocla da Reserva Extrativista de Tapajós-Arapiuns no oeste do Estado do Pará, Brasil. Este workshop é um exemplo de grupos de pequenas comunidades manejando seus recursos florestais de maneira sustentável através da extração de madeira para a produção de móveis em pequena escala.  Adicionalmente aos mercados locais, os móveis são vendidos para lojas espalhadas por todo o Brasil, incluindo redes de liderança no negócio de movelaria tais como a Tok Stok.

 

A Reserva Florestal da Comunidade Tapajós, uma precursora da reserva extrativista, foi criada na década de 80, quando as comunidades vivendo ao longo das barrancas do Rio Tapajós se organizaram para protestar contra os avanços dos companhias de desmatamento comercial. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, uma agência governamental que administra títulos agrários, fez uma doação de uma reserva florestal de 13 km por 64 km ao longo do lado oeste do Rio Tapajós.  No meio da década de 90, as comunidades na Reserva Tapajós se uniram às comunidades vivendo ao longo do Rio Arapiuns, um tributário do Tapajós, de forma a entrar com uma requisição de uma Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, englobando as terras existentes entre os dois rios.  Em 1998, as comunidades receberam a reserva de 674.611 hectares, uma imensidão de floresta tropical cercada ao norte e a oeste por quilômetros de praias de areia durante a estação de baixos níveis de água. A reserva é habitada por povos predominantemente descendentes de índios os quais ganham sua vida a partir da floresta como agricultores, caçadores e coletores de produtos florestais.  Esses povos são também excelentes artesãos de cestos e canoas os quais têm grande demanda por toda a região. 

 

De maneira a ajudar a lidar com as preocupações dessas comunidades de que as florestas que elas haviam lutado tanto para proteger não estavam lhes provendo os benefícios econômicos necessários, David McGrath, um geógrafo da Universidade Federal do Pará no Brasil, e o Centro de Pesquisas Woods Hole nos Estados Unidos, apresentaram para as comunidades a produção de móveis como uma atividade sustentável tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental.  Depois de entrar em contato com Antônio José Mota, um sociólogo e organizador comunitário da reserva, a oficina foi fundada in 1998, com a participação das comunidades Nova Vista, Nuquini e Surucuá.  Charles Peters, um ecólogo de plantas do Jardim Botânico de Nova Iorque, entrou para o time para desenvolver um plano de manejo florestal consistente com as demandas de madeira e com os conhecimentos tecnológicos dos participantes da oficina.

 A foto por Oficina de Caboclo

Batizada em homenagem aos povos caboclos locais, uma mistura de

descendentes europeus, africanos e indígenas, os participantes da Oficina Caboclo começaram a fazer bancos, tábuas de cortar e outros pequenos objetos e aparatos domésticos utilizando madeiras mortas coletadas em clareiras abertas para agricultura, de maneira que árvores não tivessem de ser derrubadas.  McGrath, que tinha o trabalho em madeira como um hobby, explica que além de ser ambientalmente correta, a madeira morta é muito mais adequada para a confecção de móveis uma vez que é mais seca e menos susceptível a rachar ou encolher.  

 

“Um dos aspectos importantes deste projeto é que ele é muito simples, tecnicamente falando”, diz McGrath. “Este projeto não requer maquinários sofisticados ou grandes especialidades, de forma que embora a atividade seja nova, ela é colocada em prática de forma a se integrar facilmente ao estilo de vida existente na comunidade e à forma na qual essa comunidade está acostumada a fazer as coisas”.

 

A utilização de madeira morta tem permitido aos grupos que continuem produzindo móveis enquanto desenvolvem os planos de manejo para que possam começar a extrair madeira em pé.  Para poder derrubar árvores em reservas extrativistas o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), uma agência do Ministério do Meio Ambiente Brasileiro, requer a submissão e aprovação de um plano de manejo.  Com o suporte da Fundação Overbrook, Peter treinou os participantes da Oficina Cabocla em métodos de coletas de dados necessários para a produção do plano de manejo para o IBAMA.  O projeto também recebe financiamento da Agência Internacional de Desenvolvimento (USAID), Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) e Promanejo no Brasil.

 

O desenvolvimento de um plano de manejo requer a coleta de dados e informações básicas, incluindo inventário florestal, uma medida de quanta madeira existe na floresta, e estudos de crescimento, uma medida de quanta madeira as árvores produzem em um ano.  Um nível sustentável de retirada de madeira é aquele onde somente é derrubado um número de árvores que seja igual à quantidade de madeira produzida em um ano. 

 

A condução de um inventário florestal envolve a contagem e medição do diâmetro e altura de uma amostra de árvores, o que resulta no volume de madeira de cada uma das espécies presentes naquela floresta.  Para a condução de estudos de crescimento na Reserva Tapajós-Arapiuns, Peters treinou os caboclos na utilização de bandas dendrômetro vernier, um instrumento colocado ao redor do tronco das árvores como um cinto e que pode medir o crescimento com a precisão de centésimos de centímetro. No início do estudo de crescimento, é feita uma marca na banda vernier que mostra a largura da árvore naquele momento, o que se faz novamente a cada ano.  Conforme a árvore cresce, a distância entre as marcas vai-se tornando cada vez maior, e a diferença de um ano para o outro indica o volume de madeira que a árvore produziu naquele ano.  Este valor é então multiplicado pelo número de árvores daquela espécie na floresta.  O número resultante indica o volume de madeira que pode ser retirada de maneira sustentável a cada ano.  Somente a quantidade de madeira que cresceu na floresta naquele ano é cortada.

 

Peters se recorda, “Alguns profissionais da área florestal do governo me informaram sobre um estudo extensivo de crescimento florestal realizado 10 anos antes em um local do outro lado do rio na Floresta Nacional dos Tapajós, sugerindo que eu deveria usar aqueles dados.  Entretanto, aqueles dados já tinham 10 anos e haviam sido coletados do outro lado do rio.  Ao invés de apenas informar às comunidades os números a serem utilizados para crescimento anual, eu queria empoderá-los para calcular os números por eles mesmos.  O departamento florestal não tinha muita certeza se os caboclos podiam ser treinados para coletar tais dados, mas é claro que eles podem.  Eles aprenderam como fazer isto em um dia”. 

 

Depois de coletar três anos de dados de crescimento, os participantes da oficina compararam seus números com aqueles coletados pelo departamento florestal e se deram conta que as árvores na reserva extrativista estavam crescendo mais rapidamente do que no outro lado do rio.  De acordo com Peters, isso se deve ao fato de que 15 anos antes um fogo havia passado pela reserva extrativista, abrindo o dossel da floresta e permitindo que as árvores crescessem mais rapidamente. “Essas descobertas significaram que o corte permitido foi maior do que teria sido caso tivéssemos utilizado os dados oferecidos pelo governo, e agora os caboclos também sabem de onde a informação de crescimento vem”, diz ele. 

 

Outra vantagem do estudo de crescimento da Oficina é que deixando os verniers nas árvores é possível medir o quanto as taxas de crescimento mudam quando o dossel é aberto pela derrubada de algumas árvores.  Conforme algumas árvores vão sendo removidas seletivamente, as árvores remanescentes devem crescer mais rapidamente, aumentando o volume de madeira que pode potencialmente ser retirada.  Peters recentemente passou uma semana analisando os dados e treinando os participantes em métodos para o cálculo do corte permitido e seleção das árvores a serem derrubadas.  Como resultado disso, duas comunidades já produziram e submeteram seus planos de manejo para o IBAMA.

 

Através do cálculo da quantidade de madeira necessária para uma tábua de cortar confeccionada pelos caboclos, Peters determinou que uma árvore com 1,5 metros de diâmetro e 45 metros de altura possui madeira suficiente para produzir 800 tábuas de cortar.  A derrubada de duas dessas árvores fornece madeira suficiente para manter os participantes da Oficina ocupados por um ano. 

 

A foto por Oficina CabocloComo o coordenador do projeto, o papel de Antônio José Mota é garantir que os membros da comunidade dirijam os progressos do projeto por eles mesmos.  McGrath nota, “O projeto é focado no desenvolvimento organizacional de maneira que os membros da Oficina nunca sintam que as coisas estão andando muito rápido para eles ou que alguma outra pessoa esteja tomando decisões por eles.  Este projeto é algo do qual eles são donos”. 

 

O projeto começou com esses participantes, em sua grande maioria agricultores, trabalhando por uma semana por mês.  Enquanto que a produção de móveis resulta em uma fonte adicional de receita, ela não substitui o sistema básico de sobrevivência.  McGrath explica, “Até o presente momento, eles têm escolhido a expansão do tamanho do grupo, em contrapartida a um aumento de trabalho por grupo.  Nós não queremos colocar os membros das comunidades em uma situação em que eles se tornem dependentes de uma atividade que não é capaz de suportá-los ao nível que eles precisam.  Este é um balanço bastante complicado e temos encorajado a todos eles que tomem decisões baseadas naquilo que faça mais sentido para eles.  Como este tipo de produção simplificada, eles podem facilmente ajustar o seu ritmo de trabalho às suas necessidades”.

 

Enquanto isto, o governo Brasileiro iniciou a legislação de protocolos de manejo para as reservas extrativistas.  O projeto da Oficina Cabocla é visto como um modelo bem sucedido de produção e manejo florestal sustentável.  Dois anos atrás os coordenadores foram convidados a liderar um grupo de desenvolvimento de um plano de manejo para a reserva extrativista inteira, baseados na metodologia da Oficina Cabocla.  Os coordenadores da Oficina esperam que essa abordagem de comunidade florestal venha a ser replicada e eventualmente tenha um papel importante para a silvicultura Amazônica. “Quinze anos atrás as pessoas pensavam que as reservas extrativistas já estivessem em um nível de sofisticação que algumas estão somente agora atingindo”, diz McGrath.  “O conceito está anos luz à frente da nossa capacidade de colocar as idéias em prática.  Eu penso que nós estamos começando a ver como este conceito pode se tornar bem sucedido, e eu vejo este projeto como parte de um modelo”.

 

Conforme outros moradores da Reserva Tapajós-Arapiuns ficaram sabendo do projeto, a Oficina, que começou com três comunidades, cresceu bastante e hoje em dia inclui seis comunidades.  McGrath acredita que o projeto é especialmente atrativo para as comunidades devido ao fato de novos grupos estarem começando a produzir móveis, de maneira que os participantes podem rapidamente ver os aspectos práticos e o produto final.  Isto torna novos conceitos, tais como manejo florestal e marketing, menos abstratos. De fato, diz ele, a exploração florestal é agora bem entendida pelas comunidades caboclas.  Os participantes da Oficina, alguns deles analfabetos, agora discutem inventário florestal e estudos de crescimento.  Devido ao fato de eles terem passado três semanas contando e medindo árvores, eles estão profundamente interessados em cuidar da reserva.

--Melissa Krenke

Contatos:  Charles Peters, New York Botanical Gardens, Bronx, New York 10458, tel:  +718/817-8727, fax:  +718/220-1095, cpeters@nybg.org, www.nybg.org.   David G. McGrath, Instituto de Pesquisa Ambiental do Amazônia, Avenida Rui Barbosa #136 CEP 68100-005; Santarem, Brazil, tel:  +55-91-522-5538, dmcgrath@amazon.com.br, www.ipam.org.br.

Leia este artigo em inglês

 

Leia mais a respeito deste projeto na Página de Internet do Eco-Index:

http://www.eco-index.org/search/resultsp.cfm?projectID=868 

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